HO’PONO’PÃO [ou “da massa”]

Vou contar uma história breve:

Desde criança gostei de pão. No Uruguai, país de origem dos meus pais e no qual fui criado até os 10 anos de idade, há uma boa cultura de padaria. Adorava um tipo chamado galleta. Nas férias que passava com meus avós maternos em Lagomar, um balneário a meia hora de Montevidéu, o cotidiano era sair de bicicleta antes do café da manhã com meu avô Miguel e comprar flautín tostado, espécie de baguete bem crocante. Colocávamos na torradeira com uma bela fatia de queijo em cima. Também servia para fazer sanduíches grandes, e assim dava vazão a toda minha gulodice infante.

Ao vir morar no Brasil, em Floripa, entrei em contato com o pão de trigo, também conhecido como pão de sal, chamado por alguns de pão francês. Era diferente dos pães uruguaios, mas aprendi a gostar. Joyce, companheira do meu pai, fazia pães em casa. De milho, integrais, “de minuto”. Eram muito bons, a lembrança traz sensação boa. A propaganda da seven boys me cativava desde a primeira infância (na fronteira, mesmo do lado uruguaio, predominava a televisão brasileira).

Lá pelos 17 anos de idade tive amigos que praticavam uma alimentação mais natural. Conheci bons pães integrais, e gostei. Aos 18, morando numa república, fiz com mais gente a primeira tentativa de produzir meu próprio. Ficou parecendo um bloco de pedra. Duríssimo por fora. Não desisti. Tempos adiante fiz outros, e foram melhorando no quesito maciez. Ao longo dos anos, fui fazendo, experimentando proporções, melhorando aspectos do processo. Comprei fôrmas, ganhei um forno maior, gostava de preparar fornadas. A festa dos grãos, das sementes.

Fui bastante purista durante um bom período. Gostava de fazer um pão 100% integral. Usava farinha de trigo integral, farinha de centeio, farinha de arroz, aveia, gergelim, linhaça, sementes de girassol, melado de cana, fermento fresco, óleo extra-virgem de girassol, sal marinho… Experimentei arroz cateto integral na massa (cru não deu certo, ficava duro demais), descobri que pré-cozido era melhor… Usei trigo em grão, também pré-cozido. Usei abóbora, usei aipim, usei fubá de milho crioulo, temperos, chás…

A vida profissional pendeu para fora da cozinha. Cozinhava (padaria incluída) por gosto, não como ofício. O pão não era ganha-pão. Mas rendia elogios de amigos e parentes. Comecei a ouvir: “poderia fazer para vender!”. Ficava sempre antenado nos pães integrais artesanais disponíveis no mercado da Ilha de Santa Catarina. Conheci pessoalmente boa parte das pessoas que faziam pão. Alguns duraram décadas, outros alguns anos, experimentei a grande maioria a partir do ano 2000. Observei pontos em comum, diferenças… Só comprava. E comia. Como trabalho tradução, revisão, mais adiante jornalismo, comunicação cultural e fotografia. Cabeça muito cheia, desde sempre. Numa época a descoberta da tapioca tão indígena me fez deixar o trigo um pouco de lado.

A certa altura, há uns 10 anos, a vida pediu trabalho menos intelectual e vivenciei a função de auxiliar de padaria. Foi uma experiência interessante. Aqui na ilha. Coincidência significativa: o padeiro-chefe era uruguaio. Não durei muito tempo, mas foi o suficiente para perceber diferenças entre produção em pequena escala e em grande escala, assim como entre feitura da massa por máquinas e com as mãos.

Um pouco mais adiante, há uns 5, fui tomado por um idealismo que me fez renunciar às atividades intelectuais para ganhar o sustento material. Cada vez mais ouvia incitações à produção de pão integral “para fora”. Optei por fazer para vender. Criei uma marca chamada “Pão de Cada Dia”, cheguei a ter forno industrial, comprava embalagens, lidava manualmente com massas de mais de 5kg. Distribuía diretamente na casa dos clientes. Ficavam felizes ao me receber. A experiência durou por volta de um ano. No caso dos bolos e outros doces, que também fazia, usava a marca auxiliar “Panis et Circensis”. Para além das ponderações econômicas, valeu.

Em suma, foram muitas e muitas fornadas ao longo desses últimos 15 anos. Entre os 18 e meus atuais 33, vou dando um jeito de não carregar o panifício como uma cruz. Recebi, tendo a padaria como tema de conversa frequentemente, toques muito valiosos de diferentes padeiros, amigos e desconhecidos. No fazer, inúmeras tentativas e erros. Macetes aprendidos, inventados, remixados. Voltei aos labores em que predomina a linguagem intelectual. Ainda assim busco caminhos. E gosto de usar as mãos, seja para percussão, seja para padaria.

Descobri por conta própria que é possível transmitir energia amorosa à massa, silenciar internamente durante a panificação. Abandonei a rigidez e cheguei a uma receita que pode ser simples e ao mesmo tempo saudável. Veio a iniciação no Reiki. O Ho’opono’pono apareceu com força em 2015. Me acompanham as frases “Eu te amo. Sinto muito. Por favor, me perdoe. Sou grato.”.

Várias vezes durante a vida, de diferentes maneiras, me atraíram práticas que conduzem a alguma espécie de zero. O Tao, andar de bicicleta, nadar no mar, fazer música livre, amassar, formar, assar pão, amar… Admiro a turma modernista da Semana de 22.

HO’PONO’PÃO é um pouco de tudo isso. Gracias! =) ❤

Capa Apostila Hoponopão

 

 

No próximo sábado, 25 de junho, acontece um evento presencial.

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